A Ideia de Igualdade e os Bolcheviques – Nestor Makhno

A IDEIA DE IGUALDADE E OS BOLCHEVIQUES

Nestor Makhno

O 14º Congresso do Partido Comunista Russo condenou sem paliativos a noção de igualdade. Antes do congresso, Zinoviev tinha mencionado essa noção no decorrer de uma polémica com Ustrialov e Bukarin. Declarou então que toda a filosofia contemporânea estava baseada na ideia de igualdade. Kalinin falou energicamente durante o congresso contra este parecer, defendendo que nenhuma referência à igualdade podia ser de utilidade, mas antes prejudicial e que por isto não devia ser tolerada. Os seus raciocínios foram os seguintes:

“Podemos falar de igualdade aos camponeses? Não, de modo nenhum porque, nesse caso, se poriam a exigir direitos iguais que os operários, o que estaria em contradição absoluta com a ditadura do proletariado. Podemos falar de igualdade aos operários? Não, de modo nenhum, porque podem questionar por que razão um membro do partido comunista e outro que o não é, fazendo o mesmo trabalho, o primeiro recebe um salário duplo no segundo. Para conceder a igualdade haveria que permitir que os que não são membros do partido comunista exigissem o mesmo salário que o de um comunista. Camaradas, seria isto aceitável? Não, de maneira nenhuma. Podemos falar de igualdade entre os próprios comunistas? Também não, porque ocupam diferentes posições, tanto em relação aos seus direitos como a suas circunstâncias materiais”.

Com base nestas considerações, Kalinin concluiu que o uso por parte de Zinoviev da palavra “igualdade” apenas podia considerar-se como demagógico e nefasto.

Na sua resposta, Zinoviev expôs ao congresso que, embora tenha falado de igualdade, havia-lo feito com um sentido diferente. Tudo o que tinha em mente, disse, era a “igualdade socialista”, isto é, a igualdade que um dia num futuro mais ou menos próximo será uma realidade. Para o tempo presente, até que chegasse a revolução mundial (e não havia maneira de prever quando isso iria ocorrer), no podia sequer colocar-se a questão da igualdade. Em particular, não podia haver igualdade de direitos, porque isto seria arriscar uma viragem em direcção a desvios “democráticos” muito perigosos.

Esta interpretação da noção de igualdade não saiu em forma de resolução do congresso. Mas, na essência, os dois bandos que se enfrentaram no congresso estavam de acordo em que a ideia de igualdade era intolerável.

Antes, e não foi há muito tempo, os bolcheviques falavam uma linguagem bastante diferente. Actuaram durante a grande revolução russa sob a bandeira da igualdade, para derrubar a burguesia conjuntamente com os operários e camponeses, em nome dos quais se apropriaram do controlo político do país. Foi sob essa bandeira que, nos oito anos de reinado sobre a vida e a liberdade dos trabalhadores da antiga Rússia – agora designada “União das Repúblicas socialistas Soviéticas”- os czares bolcheviques quiseram convencer esta “União”, por eles oprimida, assim como os trabalhadores dos países que ainda não dominam, que se eles perseguiram, se deixaram apodrecer nas prisões e nas deportações e se tinham mesmo assassinado os seus inimigos políticos, era unicamente em nome de uma revolução, dos princípios igualitários supostamente por eles introduzidos e que os seus inimigos pretendiam destruir.

Em breve fará oito anos desde que o sangue dos anarquistas começou a correr porque recusaram curvar-se servilmente diante da violência e desvergonha de quem se apropriou do poder, nem diante da sua ideologia mentirosa e sua total irresponsabilidade.

Neste acto criminoso, que não pode ser descrito de outro modo senão como um massacre levado a cabo pelos deuses bolcheviques, os melhores frutos da revolução morreram porque foram os personagens mais leais aos ideais revolucionários e porque não puderam ser subornados para destes ideais abjurarem. Ao defender com honestidade os princípios da revolução, estes seus filhos tentaram travar a loucura dos deuses bolcheviques e encontrar uma saída perante o beco daqueles, assim como abrir caminho à liberdade e à genuína igualdade dos trabalhadores.

Os poderosos bolcheviques compreenderam logo que as aspirações destes filhos da revolução cavariam a tumba da sua loucura e de todos os privilégios que habilmente haviam herdado da burguesia; então, com as suas artimanhas, serviram-se da sua posição. Por estes motivos condenaram os revolucionários à morte. Homens com alma de escravos apoiaram-nos e o sangue correu. Durante os últimos oito anos o sangue tem continuado a correr e em nome de quê? Poderíamos perguntar. Em nome da liberdade e igualdade dos trabalhadores, dizem os bolcheviques, enquanto continuam com o extermínio de milhares de revolucionários anónimos, de lutadores pela revolução social, que designam de “contra-revolucionários” e de “bandidos”.

Com estas mentiras desavergonhadas, os bolcheviques ocultaram a verdadeira natureza dos factos na Rússia, da vista dos trabalhadores do mundo inteiro, particularmente o seu total fracasso no que se refere à construção do socialismo, quando se trata de algo evidente para todo aquele que tenha olhos.

Os anarquistas alertaram em todo o mundo os trabalhadores de todos os países para os crimes bolcheviques durante a revolução russa. O bolchevismo, encarnando o ideal do Estado centralizado, tem-se mostrado como o inimigo mortal do espírito livre dos trabalhadores. Recorrendo a medidas sem precedentes, sabotou o desenvolvimento da revolução e destruiu os seus aspectos mais sublimes e dignos. Com uma máscara bem sucedida, ocultou o seu rosto verdadeiro aos trabalhadores, apresentando-se perante eles como o campeão dos seus interesses. Apenas agora, após um reinado de oito anos, cada vez mais próximos da burguesia internacional, começa a retirar essa máscara e a mostrar directamente ao mundo do trabalho o seu rosto de rapace explorador.

Os bolcheviques abandonaram a ideia de igualdade, não apenas na prática, como também em teoria e o mero enunciado desta parece-lhes hoje perigosa. Isto é compreensível, pois o seu domínio repousa sobre uma noção diametralmente oposta, numa sangrenta desigualdade, no horror mais absoluto cujos males se abateram sobre os trabalhadores. Esperemos que os trabalhadores de todo o mundo retirem as necessárias conclusões e por seu turno dêem cabo dos bolcheviques que são os defensores da escravidão e opressores do Trabalho.

Delo Truda, No.9, Fevreiro de 1926

Traduzida por Manuel Baptista

 

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